De bicicleta
- Julian de Sousa
- 1 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Quando ele estourou no futebol brasileiro, o seu pai, que cedo na vida já era um homem de mais suor na testa que letras no caderno, lhe disse assim:
— Nunca esqueça de onde é que tu veio, meu menino.
Com isso na ideia, Vini Alves cresceu galgando um por um todos os degraus que um homem da sua espécie poderia galgar.
Também cedo, como o pai — ao passo que muito diferente dele —, provou dos verdadeiros prazeres da vida. Comeu bons pratos, bebeu bons vinhos, foi pra cama com garotas bonitas. Coisas que, depois de um tempo, não pareciam mais conquistas árduas, mas consequências convencionais na vida do homem. Sua vida era um passe VIP e, tal qual já tinha pregado o Comte, tudo se naturalizou.
Quando foi convocado pra Seleção Brasileira, tinha só 19 anos. Era um rapagão esguio, ruço, do cabelo sarará, das canelas rápidas de tuiuiú. Brasileiro já na cor, no tamanho da boca, no tamanho do nariz. No vestiário, aliás, tamanho não lhe fazia falta... Rendia todo tipo de reação sardônica dos colegas, desses elogios comedidos, disfarçados, que a macharada só dedica uns pros outros.
Às vezes, no pouco tempo livre e silencioso que tinha pra si mesmo, ficava pensando no quão a vida tinha dado um salto. Aquele tipo de salto que todos esperam acontecer, e que só alguns, de fato, o aproveitam.
Quando moleque, matava aula pra bater aquela pelada de lei com os colegas atrás da escola, num campinho de grama falhada. O Marquinhos, o Brian, o Estevão. O Brian mesmo era ótimo, menino iluminado. Quando ficava no gol, não passava uma bola por ele. Poderiam estar ali, juntos, indo pra Copa do Mundo defender o Brasil. Mas o salto não é pra todo mundo. A vida é engraçada.

E, na sua, tudo aconteceu tão de repente.
De repente, a imprensa rondava sua casa, o que o fez se mudar pra bairros cada vez mais isolados. Lapa, quando jogou pelo Santos. Depois, Tijuca, quando foi pro Mengão.
De repente, os parentes distantes apareceram, reafirmaram o vínculo perdido da proximidade.
De repente, a molecada que ele foi um dia carregava o seu nome nas costas da camisa pra todo canto. A mulherada driblava o capeta pra parar na sua cama.
De repente, era ídolo absoluto, e tudo estava ao alcance da mão. Era só esticar o braço.
Perdeu a Copa, mas deixou logo no jogo de estreia a sua marca — meteu a bola entre as pernas do goleiro num gol de bicicleta. Levou o prêmio de mais bonito do mundial. A atuação, a propósito, rendeu a óbvia e milionária transferência pra um clube europeu.
Só que subindo de degrau, a pressão também sobe.
Os treinos eram puro rigor. O técnico, rigor. A torcida, a imprensa, a equipe. O futebol do menino que matava aula pra jogar virava, afinal, exatamente o mesmo que trabalhar encerrado num escritório cinza e carrancudo. O futebol virava coisa mais que séria.
Numa partida, quando lhe jogaram uma banana em campo, ele a descascou e comeu. Comoveu os emotivos. Dono do couro calejado pela imprensa e pelo público, tinha aprendido rápido a atuar. Falava pouco, não dava declarações demoradas. Começou, por regra, a jogar também não só dentro dos gramados.
Logo, ficava louco pra largar o personagem quando desligavam as câmeras. Dava festas privadas caras, convidava beldades, pagava os parças de clube pra comparecerem um instantinho. Sabidamente, continuava atuando, mas, dessa vez, de forma que não precisava impressionar os externos. Só os internos.
Uma vez, bebeu todas, se alterou, tirou a roupa, subiu pro quarto com uma menina embaixo da asa. Semanas depois, saiu na imprensa internacional uma acusação de estupro com o seu nome na manchete. Um inferno. Uma merda viral. Ele nem lembrava mais quem que tinha sido a vítima.
A princípio, negou tudo. Depois, se traiu, deixou escapar uma hipótese que, em tempo recorde, foi creditada como factual.
Nunca chegou a jogar uma segunda Copa do Mundo. Foi pra cadeia, lugar inédito pra um homem da sua então nova espécie, e terminou julgado e condenado. A chuteira escapou do pé e a carreira acabava amarga, aos 24, mas com direito a cela privativa com suíte.
Sentado, ficava lembrando do Brian, que era iluminado, mas tinha virado gerente dum mercado. Tirava dois contos por mês, estourando. Vida de rato de merda — e, aqui, pensava se a dele ou a sua.
Já tinha 30 e tantos quando saiu da chave, e o primeiro contato do mundo externo a recebê-lo foi a imprensa. Perguntaram pra qual clube ele iria agora que estava solto, no que ele disse:
— Não tenho nenhum em mente, mas sei que já tem algumas propostas, então vou ouvir primeiro. Só quero aproveitar um pouco a minha família, que é a minha base, e depois penso em futebol. Aguentar o que eu passei ali, não é brincadeira… Só tenho que agradecer a Deus!
Noutra época, vivia fugindo daqueles microfones, mas, agora, sorria, falava bonito, respondia a todos, dava declarações compridas, as lágrimas brilhando nos olhos. Aquela gente toda ali — uns cinco ou seis jornalistas — reacendia o seu pavio de artista. Teve saudades. Quase agradeceu um por um pela presença. Era um homem do entretenimento de novo. O que distraía a vida medíocre das pessoas em casa de novo.
Depois da prisão, ainda passou por quatro clubes pequenos do Rio. Morreu aos 38, de tiro na cabeça. Na época, noticiou-se que era porque tinha feito um gol contra numa partida pela Taça Guanabara, e um apostador graúdo, após ter perdido uma nota preta com isso, mandou queimarem seu arquivo. O mandante nunca foi identificado.
Julian de Sousa é acadêmico da 5ª fase de jornalismo da Unemat tangaraense.
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